
A semana passada ao falar de VELHO LOGAN mencionei aqui um outro trabalho da dupla (Mark Millar [texto] e Steve McNiven [desenhos]): GUERRA CIVIL.
Mais do que uma saga inesquecivel, GUERRA CIVIL, é a consequencia de outras sagas do universo MARVEL (Vingadores: A Queda, Dinastia M, Dizimação e Guerra Secreta) e o prologo para outras sagas que se seguiram (Invasão Secreta, Reinado Sombrio, Cerco)...
Mais do que uma saga inesquecivel, GUERRA CIVIL, é a consequencia de outras sagas do universo MARVEL (Vingadores: A Queda, Dinastia M, Dizimação e Guerra Secreta) e o prologo para outras sagas que se seguiram (Invasão Secreta, Reinado Sombrio, Cerco)...
O texto que se segue foi copiado do site DUVIDO ( http://duvido.haaan.com/ ) e é a melhor analise que já li a toda a saga:
“Guerra Civil” é o nome de uma das maiores – e melhores – histórias publicadas pela editora Marvel. Trata-se de um grande evento editorial, conduzido através de uma mini-série em sete partes e que, perifericamente, atravessa vários outros títulos da editora, como “Homem-Aranha”, “Capitão América”, “Quarteto Fantástico” e outros. Mas, o que é melhor, por baixo do que aparenta ser uma mera história de super-heróis, com “Guerra Civil” a editora utiliza uma fábula para levar ao público jovem aquilo que ele não está acostumado a receber da cultura pop: uma complexa discussão ética e política de enorme importância e grande profundidade.
Em eventos anteriores da editora, uma série de ocorrências (a destruição de Las Vegas pelo Hulk; a invasão não-autorizada da Latvéria pelo Quarteto Fantástico e, posteriormente, por Nick Fury, agente do governo americano; entre outras histórias) levou à uma desconfiança cada vez maior dos super-heróis pelos humanos. Aproveitando-se deste clima de insegurança, o Congresso Americano aprova uma lei de registro de super-heróis, onde qualquer um com habilidades acima da humana deve se “registrar”, ou seja, informar ao Governo sua identidade secreta e passar a atuar como agente federal, seguindo ordens da administração e recebendo salário como funcionário estatal. Os que não obedecessem seriam forçados a encerrar suas atividades ou passariam a ser considerados criminosos.
Neste contexto começa “Guerra Civil”. Quando um desastre envolvendo um grupo de heróis adolescentes acaba matando mais de 600 pessoas, incluindo crianças, a opinião pública desaba sobre os heróis e a lei é aprovada. Antony Stark, o Homem de Ferro (um republicano icônico, milionário e dono de uma indústria armamentista) fica do lado dos que apóiam a lei de registro, junto a vários heróis. De outro lado, Steve Rogers, o Capitão América, um veterano da Segunda Guerra, adota o caminho da ilegalidade e lidera um grupo de rebeldes contra o próprio governo dos Estados Unidos. A situação leva a vários combates entre os grupos, e os EUA se transformam no campo de batalha entre aqueles que, tradicionalmente, sempre estiveram do mesmo lado.
Esta é a força da ficção. Não é preciso ser um gênio ou um analista político para traduzir o que esta história quer dizer, e o quanto ela reflete a opinião do americano sobre seu próprio país. Mesmo assim, é interessante analisar este fenômeno e refletir sobre esta auto-análise do espírito americano.
Primeiro, é importante lembrar que “Guerra Civil” não traz vilões nem mocinhos. Ambos os lados expõem seus argumentos adequada e até certo ponto imparcialmente, o que é uma façanha dos roteiristas. Enquanto o conservador Antony Stark quer evitar o pior e encara a lei como uma concessão válida dos interesses privados ao interesse público, buscando negociar junto ao Congresso garantias para os atingidos, o liberal Steve Rogers insurge-se contra o que acredita ser um primeiro e inaceitável passo na intromissão do Estado na privacidade do cidadão. Stark é prático e tenta fazer o que considera certo com as cartas que sobraram na mão; Rogers opera in abstrato e agarra-se a princípios, pretende o correto através da proteção e defesa intransigente de valores. E, mesmo assim, estão frontalmente opostos, e mesmo que tenham argumentos muito bons acerca do que estão defendendo, também pecam em ciladas clássicas da filosofia política.
O Capitão América, por exemplo, abraça o caminho da ilegalidade e argumenta que nem sempre o que é ilegal é errado, como também, nem sempre o que legal é correto. De fato, uma vez que o estado – quem emite as leis – deveria ser uma mera máquina a serviço do povo, e não ele mesmo beneficiário ou interessado pelas leis, quando age de maneira contrária aos interesses populares o faz de forma ilegítima. Um ato ilegítimo, mesmo que formalmente legal, não deve ser respeitado.
A situação seria clara e o Capitão estaria plenamente correto, se não fosse por um detalhe: a lei de registro é amplamente apoiada pela população. O Capitão não se insurge contra uma decisão unilateral do governo, mas por uma lei nascida de um anseio popular, criada através do processo democrático representativo e muito bem recebida pela população.
Mesmo assim, ele despreza a opinião popular (ela estaria, o que não é mentira, excessivamente contaminada pelo sensacionalismo da mídia) e, no melhor estilo platônico, se encumbe do papel de decidir o que é ou não “verdadeiramente” do interesse do povo americano. E, na sua opinião, se o povo estivesse realmente consciente, escolheria outro caminho.
Defendendo a democracia e as liberdades civis, o Capitão cai na sedução dos déspotas: o titular do poder político não sabe o que é o melhor para ele, e precisa de um “intérprete” dos seus próprios interesses. Mas ele próprio sabe. Tanto sabe que vai contra a lei, o estado, vários de seus antigos companheiros e até mesmo a opinião popular para defender o seu ponto.
Ao assumir esta postura, o Capitão, acreditando agir de maneira liberal e democrática, acaba por minar sua posição e torna-se, no fundo, conservador e autoritário. Qual é o parâmetro do Capitão para definir o que é o interesse “verdadeiro” da sociedade senão suas próprias crenças e convicções?
O Homem de Ferro, por sua vez, enfrenta um caminho oposto. Antony Stark é um homem de negócios, pragmático e com os pés no chão. Se o Capitão América, na defesa da correção principiológica absoluta vai até os extremos do autoritarismo platônico, o Homem de Ferro tenta operar com o que tem nas mãos, sacrifica a correção dos meios pela busca do melhor resultado, na melhor moda de Maquiavel, e acaba, na medida em que a situação progressivamente foge ao controle, enliado em um problema que o faz tomar atitudes cada vez menos éticas.
Stark inicia a saga com uma preocupação com o desastroso atrito que a aprovação da lei pode trazer aos super-heróis. Para minimizar os confrontos, recorre à maquinação política e, por baixo dos panos, aciona seus contatos em Washington para apressar a aprovação da lei, para que tudo acabe o quanto antes, da forma mais discreta possível.
Mas o problema do maquiavelismo é que, apelando a meios reprováveis para alcançar fins desejáveis, sempre acabamos assumido um risco que não podemos medir com precisão. Se você não garante o fim desejado, tudo o que sobra é uma sequência de meios reprováveis.
Quando o Capitão se opõe à lei, fragmenta os heróis em dois grupos. A situação exige de Stark a adoção de meios mais e mais extremos para fechar uma ferida cada vez mais aberta. O Homem de Ferro cai da maquinação política na chantagem, passa à manipulação da opinião pública, à traição, e chega aos extremos de planejar prisões que não se sujeitam ao sistema legal, sem garantias, processo ou advogados. Uma ação alimenta a necessidade de outra, na medida em que o Homem de Ferro perde aliados e se isola. No final, a situação é tão grave que concede anistia aos mais perigosos psicopatas do universo Marvel, desde que eles ajudem no controle aos rebeldes.
O comentário político é evidente. A certa altura da história, por exemplo, é financiada pelos Estados Unidos a construção de uma prisão de exceção aos moldes de Guantanamo para encarcerar os heróis renegados. A sequência de controles que Stark pretende implantar é o eco do Ato Patriótico do Governo Bush, a polêmica política de supressão de liberdades civis em nome da segurança nacional adotada após o 11/9.
É de se destacar também o papel do Capitão América na história. O Capitão é um herói criado nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial. É um símbolo de outros tempos. Encarna um ideal liberal, democrático, típico dos EUA da primeira metade do século. Sempre foi retratado como um soldado a serviço da nação.
Já na sequência dos atentados de 11/09, o Capitão começou a tomar um rumo mais crítico. Suas histórias questionavam o papel da polícia americana no mundo, a sinceridade dos objetivos e a legitimidade das intervenções militares americanas. Se ele nasceu em uma “guerra justa”, parecia perdido no novo milênio.
O papel do Capitão em “Guerra Civil” é simbólico. O próprio espírito americano (o Capitão é conhecido como “A Sentinela da Liberdade”) é colocado na ilegalidade. Não há espaço para uma sentinela da liberdade, e, parece, nem para a própria liberdade no mundo pós-11/09. Toda a liberdade pereceu em nome da “segurança”. No final de “Guerra Civil” o Capitão, após vencer o Homem de Ferro, é agarrado e rendido pelos próprios cidadãos de Nova York, por policiais e por bombeiros. Embora pudesse facilmente se desvencilhar, ele percebe que o povo, como solução ao clássico trade-off, prefere a segurança à liberdade, se dá conta que está lutando em vão e se entrega às autoridades em troca da anistia de seus companheiros.
http://duvido.haaan.com/
“Guerra Civil” é o nome de uma das maiores – e melhores – histórias publicadas pela editora Marvel. Trata-se de um grande evento editorial, conduzido através de uma mini-série em sete partes e que, perifericamente, atravessa vários outros títulos da editora, como “Homem-Aranha”, “Capitão América”, “Quarteto Fantástico” e outros. Mas, o que é melhor, por baixo do que aparenta ser uma mera história de super-heróis, com “Guerra Civil” a editora utiliza uma fábula para levar ao público jovem aquilo que ele não está acostumado a receber da cultura pop: uma complexa discussão ética e política de enorme importância e grande profundidade.
Em eventos anteriores da editora, uma série de ocorrências (a destruição de Las Vegas pelo Hulk; a invasão não-autorizada da Latvéria pelo Quarteto Fantástico e, posteriormente, por Nick Fury, agente do governo americano; entre outras histórias) levou à uma desconfiança cada vez maior dos super-heróis pelos humanos. Aproveitando-se deste clima de insegurança, o Congresso Americano aprova uma lei de registro de super-heróis, onde qualquer um com habilidades acima da humana deve se “registrar”, ou seja, informar ao Governo sua identidade secreta e passar a atuar como agente federal, seguindo ordens da administração e recebendo salário como funcionário estatal. Os que não obedecessem seriam forçados a encerrar suas atividades ou passariam a ser considerados criminosos.
Neste contexto começa “Guerra Civil”. Quando um desastre envolvendo um grupo de heróis adolescentes acaba matando mais de 600 pessoas, incluindo crianças, a opinião pública desaba sobre os heróis e a lei é aprovada. Antony Stark, o Homem de Ferro (um republicano icônico, milionário e dono de uma indústria armamentista) fica do lado dos que apóiam a lei de registro, junto a vários heróis. De outro lado, Steve Rogers, o Capitão América, um veterano da Segunda Guerra, adota o caminho da ilegalidade e lidera um grupo de rebeldes contra o próprio governo dos Estados Unidos. A situação leva a vários combates entre os grupos, e os EUA se transformam no campo de batalha entre aqueles que, tradicionalmente, sempre estiveram do mesmo lado.
Esta é a força da ficção. Não é preciso ser um gênio ou um analista político para traduzir o que esta história quer dizer, e o quanto ela reflete a opinião do americano sobre seu próprio país. Mesmo assim, é interessante analisar este fenômeno e refletir sobre esta auto-análise do espírito americano.
Primeiro, é importante lembrar que “Guerra Civil” não traz vilões nem mocinhos. Ambos os lados expõem seus argumentos adequada e até certo ponto imparcialmente, o que é uma façanha dos roteiristas. Enquanto o conservador Antony Stark quer evitar o pior e encara a lei como uma concessão válida dos interesses privados ao interesse público, buscando negociar junto ao Congresso garantias para os atingidos, o liberal Steve Rogers insurge-se contra o que acredita ser um primeiro e inaceitável passo na intromissão do Estado na privacidade do cidadão. Stark é prático e tenta fazer o que considera certo com as cartas que sobraram na mão; Rogers opera in abstrato e agarra-se a princípios, pretende o correto através da proteção e defesa intransigente de valores. E, mesmo assim, estão frontalmente opostos, e mesmo que tenham argumentos muito bons acerca do que estão defendendo, também pecam em ciladas clássicas da filosofia política.
O Capitão América, por exemplo, abraça o caminho da ilegalidade e argumenta que nem sempre o que é ilegal é errado, como também, nem sempre o que legal é correto. De fato, uma vez que o estado – quem emite as leis – deveria ser uma mera máquina a serviço do povo, e não ele mesmo beneficiário ou interessado pelas leis, quando age de maneira contrária aos interesses populares o faz de forma ilegítima. Um ato ilegítimo, mesmo que formalmente legal, não deve ser respeitado.
A situação seria clara e o Capitão estaria plenamente correto, se não fosse por um detalhe: a lei de registro é amplamente apoiada pela população. O Capitão não se insurge contra uma decisão unilateral do governo, mas por uma lei nascida de um anseio popular, criada através do processo democrático representativo e muito bem recebida pela população.
Mesmo assim, ele despreza a opinião popular (ela estaria, o que não é mentira, excessivamente contaminada pelo sensacionalismo da mídia) e, no melhor estilo platônico, se encumbe do papel de decidir o que é ou não “verdadeiramente” do interesse do povo americano. E, na sua opinião, se o povo estivesse realmente consciente, escolheria outro caminho.
Defendendo a democracia e as liberdades civis, o Capitão cai na sedução dos déspotas: o titular do poder político não sabe o que é o melhor para ele, e precisa de um “intérprete” dos seus próprios interesses. Mas ele próprio sabe. Tanto sabe que vai contra a lei, o estado, vários de seus antigos companheiros e até mesmo a opinião popular para defender o seu ponto.
Ao assumir esta postura, o Capitão, acreditando agir de maneira liberal e democrática, acaba por minar sua posição e torna-se, no fundo, conservador e autoritário. Qual é o parâmetro do Capitão para definir o que é o interesse “verdadeiro” da sociedade senão suas próprias crenças e convicções?
O Homem de Ferro, por sua vez, enfrenta um caminho oposto. Antony Stark é um homem de negócios, pragmático e com os pés no chão. Se o Capitão América, na defesa da correção principiológica absoluta vai até os extremos do autoritarismo platônico, o Homem de Ferro tenta operar com o que tem nas mãos, sacrifica a correção dos meios pela busca do melhor resultado, na melhor moda de Maquiavel, e acaba, na medida em que a situação progressivamente foge ao controle, enliado em um problema que o faz tomar atitudes cada vez menos éticas.
Stark inicia a saga com uma preocupação com o desastroso atrito que a aprovação da lei pode trazer aos super-heróis. Para minimizar os confrontos, recorre à maquinação política e, por baixo dos panos, aciona seus contatos em Washington para apressar a aprovação da lei, para que tudo acabe o quanto antes, da forma mais discreta possível.
Mas o problema do maquiavelismo é que, apelando a meios reprováveis para alcançar fins desejáveis, sempre acabamos assumido um risco que não podemos medir com precisão. Se você não garante o fim desejado, tudo o que sobra é uma sequência de meios reprováveis.
Quando o Capitão se opõe à lei, fragmenta os heróis em dois grupos. A situação exige de Stark a adoção de meios mais e mais extremos para fechar uma ferida cada vez mais aberta. O Homem de Ferro cai da maquinação política na chantagem, passa à manipulação da opinião pública, à traição, e chega aos extremos de planejar prisões que não se sujeitam ao sistema legal, sem garantias, processo ou advogados. Uma ação alimenta a necessidade de outra, na medida em que o Homem de Ferro perde aliados e se isola. No final, a situação é tão grave que concede anistia aos mais perigosos psicopatas do universo Marvel, desde que eles ajudem no controle aos rebeldes.
O comentário político é evidente. A certa altura da história, por exemplo, é financiada pelos Estados Unidos a construção de uma prisão de exceção aos moldes de Guantanamo para encarcerar os heróis renegados. A sequência de controles que Stark pretende implantar é o eco do Ato Patriótico do Governo Bush, a polêmica política de supressão de liberdades civis em nome da segurança nacional adotada após o 11/9.
É de se destacar também o papel do Capitão América na história. O Capitão é um herói criado nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial. É um símbolo de outros tempos. Encarna um ideal liberal, democrático, típico dos EUA da primeira metade do século. Sempre foi retratado como um soldado a serviço da nação.
Já na sequência dos atentados de 11/09, o Capitão começou a tomar um rumo mais crítico. Suas histórias questionavam o papel da polícia americana no mundo, a sinceridade dos objetivos e a legitimidade das intervenções militares americanas. Se ele nasceu em uma “guerra justa”, parecia perdido no novo milênio.
O papel do Capitão em “Guerra Civil” é simbólico. O próprio espírito americano (o Capitão é conhecido como “A Sentinela da Liberdade”) é colocado na ilegalidade. Não há espaço para uma sentinela da liberdade, e, parece, nem para a própria liberdade no mundo pós-11/09. Toda a liberdade pereceu em nome da “segurança”. No final de “Guerra Civil” o Capitão, após vencer o Homem de Ferro, é agarrado e rendido pelos próprios cidadãos de Nova York, por policiais e por bombeiros. Embora pudesse facilmente se desvencilhar, ele percebe que o povo, como solução ao clássico trade-off, prefere a segurança à liberdade, se dá conta que está lutando em vão e se entrega às autoridades em troca da anistia de seus companheiros.
http://duvido.haaan.com/
Para aqueles que acompanham as aventuras do universo MARVEL a imagem que fica de toda saga, aquela que mais marca os leitores é sem dúvida alguma... A MORTE DO CAPITÃO AMERICA... é verdade eles tiveram a coragem de o assassinar.
Ou será que não...?
os links para o download da saga completa:
4shared:
http://www.4shared.com/dir/31469820/fd72d7c0/Guerra_Civil_-_By_Equipe_GibiH.html


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